Há algo profundamente perigoso quando a violência começa a ser cantada como se fosse prova de amor. Quando uma letra afirma que alguém ama tanto outra pessoa que, se não for sua, não será de mais ninguém — e essa afirmação vem acompanhada da imagem simbólica de uma arma apontada para quem decide ir embora — já não estamos mais no campo da metáfora inofensiva. Estamos diante da normalização do mal.
O problema não é a arte retratar o lado sombrio da experiência humana. A arte sempre fez isso. O problema surge quando o mal deixa de ser denunciado e passa a ser romantizado, embalado por melodias cativantes, refrões repetíveis e performances carismáticas. Nesse ponto, a violência não é apresentada como tragédia, mas como intensidade emocional. Como se o ciúme extremo, a posse absoluta e a ameaça fossem expressões legítimas — até desejáveis — do amor.
É assim que o mal se torna cotidiano: não chega gritando, chega cantando.
Ao ser repetido, dançado, compartilhado e celebrado, esse discurso vai se dissolvendo na sensibilidade coletiva. A ideia de que “quem ama controla”, “quem ama não aceita ser deixado”, “quem ama prefere destruir a perder” passa a soar menos absurda. E quando isso acontece, a fronteira moral se desloca perigosamente.
Hannah Arendt chamou esse processo de banalidade do mal — não porque o mal seja pequeno, mas porque ele passa a ser praticado sem espanto, sem reflexão, sem resistência interior. Não é mais percebido como algo que exige ruptura ética, mas como parte do jogo da vida, das emoções, das relações.
No caso dessas narrativas musicais, o que se banaliza é algo gravíssimo:
a ideia de que o outro não tem direito de ir,
de que o afeto autoriza a posse,
de que a dor da rejeição legitima a ameaça.
Isso não é amor. É violência emocional com estética de romance.
A cultura tem um poder formador enorme, especialmente quando alcança milhões de pessoas. Ela ensina — ainda que de forma implícita — o que é aceitável sentir, desejar e fazer. Quando a violência é apresentada como resposta compreensível ao abandono, cria-se um ambiente simbólico que reduz o choque moral diante de comportamentos reais semelhantes. E isso tem consequências concretas, sobretudo em uma sociedade que já convive com altos índices de violência contra a mulher.
Do ponto de vista ético e até teológico, isso é uma inversão perigosa. Amor, em qualquer tradição minimamente séria, está ligado à liberdade do outro, não à sua anulação. Na linguagem bíblica, o amor “não busca os seus próprios interesses” e “não se alegra com a injustiça” (1 Coríntios 13). Onde há ameaça, medo e coerção, o amor já foi substituído pelo desejo de domínio.
Naturalizar o mal é isso: transformar o que deveria causar repulsa em algo emocionalmente aceitável. É trocar o discernimento moral pelo entretenimento acrítico. É permitir que o perigo vista a fantasia do sentimento profundo.
Por isso, não, não é “só música”.
É discurso.
É pedagogia emocional.
É formação de imaginário.
E toda vez que deixamos de questionar esse tipo de mensagem, damos mais um pequeno passo rumo a uma sociedade que confunde paixão com violência — e intensidade com destruição.